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A Força Da Arte, por Rui G. Cepeda

A Força Da Arte está em que ela chega do exterior para fragmentar os constrangimentos éticos e morais, questionar as classificações e necessidades contemporâneas, enquanto abre novas prespectivas, cria novos modos de ver o exterior sem qualquer condicionalismo. Para Juana Aizpuru (directora da galeria homónima em Espanha), “a arte é vida, e falar da arte é falar da vida.” E acrescenta, “a arte não pode modificar o mundo, mas pode alterar a mentalidade daqueles que podem alterar o mundo, as escalas de valores que movem o mundo.” O objecto, como peça de arte, “não tem de ser bonito, reger-se pelos padrões clássicos do belo, mas dizer coisas importantes. As quais nós – os observadores -, temos de escutar, e saber ouvir. O artista comunica sentimentos, que nos forçam a pensar, a reflectir para que a convivência entre os seres humanos seja o mais importante.” Na sua convivência com as obras de arte, Independente da sua beleza, Juana de Aizpuru sabe que existem outras camadas de informação a um nível mais profundo, muito mais interessantes e enriquecedoras, as quais reflectem as preocupações contemporâneas de uma forma que devemos absorver, adoptar, enquanto passamos um bom momento com esses objectos.
O artista contemporâneo, conforme expressa Aizpuru, “não se ergue para conceber objectos belos, mas sim expressar sentimentos.” As pessoas estão enredadas num momento civilizacional de crescente predomínio da homogeneização cultural e tendências materialistas; de expressão global; crescentemente mais informada mas de menos cultura; cada vez mais se abandonam as paixões, o afecto. “O artista hoje tem um papel diferente quando comparado com o do Renascimento, por exemplo; ele possui a capacidade de nos dar as pautas do individualismo, de sermos indivíduos, singulares.” E não mais uma expressão num corpo, numa máquina desprovida de qualquer sentimento e valor humanista.

in Notícias Sábado (revista do Jornal de Notícias), 22/11/2008

Textos de Agostinho da Silva

Uma amiga enviou-me estes textos de Agostinho da Silva e aqui os partilho. São simples e extraordinários assim como é também Deus… que pela sua exigência o homem tende a complicá-lo e pela sua magnitude tende a possuí-lo e a moldá-lo à sua imagem…
Não sei de onde foram extraídos estes textos mas já comecei a procurar a bibliografia deste grande filósofo português.
Para reflectir.

1. Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que existe. Pode-se, sem blasfémia, considerar o aspecto imanente ou o aspecto transcendente de Deus; pode-se, sem blasfémia, falar não de Deus mas apenas do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel. A doutrina de Deus, tal como a pôs Cristo, permite considerar todas as religiões como boas, embora em graus diferentes, todos os homens como religiosos. Não poderá, portanto, fazer-se em nome de Deus qualquer perseguição: todo o homem é livre para examinar e escolher; a maior ou menor capacidade de exame e o resultado da escolha serão, em qualquer caso, a expressão do que ele é e do máximo a que pode chegar segundo as suas capacidades.
2. A visão mais alta que podemos ter de Deus, nós que somos apenas uma parte do Universo, é uma visão de Inteligência e de Amor; os pecados fundamentais que o homem poderá cometer são as limitações da Inteligência ou do Amor: toda a doutrina estreita, sem tolerância e sem compreensão da variedade do mundo, toda a ignorância voluntária, todo o impedimento posto ao progresso intelectual da humanidade, toda a violência, todo o ódio, limitam o nosso espírito e o dos outros, impedem que sintamos a grandeza, a universalidade de Deus.
3. Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito. Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus, os que fazem consistir o seu culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não pode haver outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que ainda têm adiante. Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com paciência e persistência, com inteligência e com amor, procurará levá-lo ao nível mais alto.
4. Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio; ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça do rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte das preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de exploração e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos”.
5. Já reparou naquilo a que chamo a agonia do trabalho? Toda a nossa vida gira em função do trabalho. Quando se pergunta a alguém o que é, nunca temos a resposta: sou homem ou sou mulher. Diz-se: sou engenheiro, electricista, médico. Só se é gente em referência ao trabalho. Um desempregado sente-se um pária e, todavia, ele é gente, a coisa mais extraordinária que se pode ser.