Archive / Novembro, 2008

História e Lutero

Lembro-me de História não ser das minhas disciplinas preferidas nos tempos do secundário. Fazia parte daquelas que era mesmo preciso estudar, sentar a uma mesa e ler, ler.
Nesses tempos não sabia o que era o conhecimento, a aventura maravilhosa de saber sempre mais e assim compreender melhor o mundo. A aventura de saber que tão pouco se sbae e que o caminho da sabedoria é interminável.
Hoje, sem as imposições de matérias e de datas de exames e com a maturidade dos meus 30 anos, atribuo ao conhecimento da História um caminho incontornável na compreensão do mundo actual, das culturas e do nosso próprio caminho.
Ontem vi o filme Luther, de Eric Tell, 2003. Este filme inquietante (para mim foi) conta a vida de Martinho Lutero, um monge católico que não soube ver e calar o materialismo e a hipocrisia em que vivia a igreja romana nos meados do século XVI. Um monge que descobriu no Novo Testamento, fechado na língua latina e reservado ao clero maior, a sua salvação, a sua paz de espírito e a vontade de espalhar esta Boa Nova por todos, todos sem excepção.
Numa época em que as diferenças sociais eram gritantes, Lutero não quis fechar os olhos e enfrentou o maoir poder de então, A Igreja Católica Romana, que vivia do seu poder absoluto e abusava do medo que a religião incutia no ignorante povo, fazendo por esquecer os Evangelhos, as palavras de Jesus.
Martinho Lutero, um grande homem pela força das suas convicções e inabalável pelas tentações do facilitismo, iniciou a Reforma Protestante e deu à Alemanha a tradução para a sua língua do Novo Testamento, as palavras de Cristo que trouxe ao mundo a liberdade do homem através do amor, da paz, da igualdade, valorizando cada pessoa como ser único e portador desse amor que salva.
Conhecer esta parte da História é compreender muito melhor o caminho da Igreja Católica (que após esta Reforma Protestante iniciou ela própria, através do Concílio de Trento uma reforma, actualizando os valores espirituais e estabelecendo regras claras para todo o clero) e assim aceitar os seus erros, compreender o presente.
Conhecer a História é, enfim, aceitar com serenidade todos os caminhos mais obscuros que a humanidade percorreu e saber que o presente também será História e o que hoje nos parece muito bom ou muito mau faz apenas parte de um caminho que a humanidade tem de percorrer.

A Força Da Arte, por Rui G. Cepeda

A Força Da Arte está em que ela chega do exterior para fragmentar os constrangimentos éticos e morais, questionar as classificações e necessidades contemporâneas, enquanto abre novas prespectivas, cria novos modos de ver o exterior sem qualquer condicionalismo. Para Juana Aizpuru (directora da galeria homónima em Espanha), “a arte é vida, e falar da arte é falar da vida.” E acrescenta, “a arte não pode modificar o mundo, mas pode alterar a mentalidade daqueles que podem alterar o mundo, as escalas de valores que movem o mundo.” O objecto, como peça de arte, “não tem de ser bonito, reger-se pelos padrões clássicos do belo, mas dizer coisas importantes. As quais nós – os observadores -, temos de escutar, e saber ouvir. O artista comunica sentimentos, que nos forçam a pensar, a reflectir para que a convivência entre os seres humanos seja o mais importante.” Na sua convivência com as obras de arte, Independente da sua beleza, Juana de Aizpuru sabe que existem outras camadas de informação a um nível mais profundo, muito mais interessantes e enriquecedoras, as quais reflectem as preocupações contemporâneas de uma forma que devemos absorver, adoptar, enquanto passamos um bom momento com esses objectos.
O artista contemporâneo, conforme expressa Aizpuru, “não se ergue para conceber objectos belos, mas sim expressar sentimentos.” As pessoas estão enredadas num momento civilizacional de crescente predomínio da homogeneização cultural e tendências materialistas; de expressão global; crescentemente mais informada mas de menos cultura; cada vez mais se abandonam as paixões, o afecto. “O artista hoje tem um papel diferente quando comparado com o do Renascimento, por exemplo; ele possui a capacidade de nos dar as pautas do individualismo, de sermos indivíduos, singulares.” E não mais uma expressão num corpo, numa máquina desprovida de qualquer sentimento e valor humanista.

in Notícias Sábado (revista do Jornal de Notícias), 22/11/2008