Archive / Dezembro, 2008

Alegria, Sentimento Profundo

A alegria é um sentimento profundo.
E só a sente assim, no seu íntimo, quem atingiu um grau de maturidade que permite um conhecimento de si capaz de perceber o verdadeiro valor das coisas, dos momentos, dos acontecimentos. É uma alegria serena que por vezes , outros, confundem com tristeza, melancolia.
Na juventude há uma procura constante de experiências de alegria, até mesmo de euforia. Ainda não há um conhecimento do verdadeiro eu, isto porque a sua construção ainda se faz, ainda se tenta afirmar. Há uma procura de satisfação e esta só pode ser de momentos instantâneos, ainda não há segurança de um ser construído e formado para passar a um nível superior de satisfação que não passe por estes momentos mas sim uma constância.
Creio que quem cresce em conhecimento, sabedoria está mais perto de encontrar esta alegria profunda. Os que ficam pelos bens terrenos, o material, trabalhando e vivendo para os construir nunca conseguirá uma satisfação plena capaz de dotar a sua vida de uma felicidade que se poderá dizer constante. Estes, geralmente, arrastam atrás de si os tais momentos da juventude em que experimentaram instantes alegres, entusiasmantes, plenos de satisfação, mas infelizmente momentos apenas que acabam assim que termina o motor dessa alegria.
Os que sabem orientar o passar dos anos para uma crescente aprendizagem, tanto intelectual como espiritual, encontram uma felicidade mais serena, assente na tal alegria profunda de quem encontrou nos seus conhecimentos a satisfação e a realização do eu. Mas que tem a plena consciência que tanto mais há para saber, para encontrar, para procurar. Que afinal cada um é só mais um e apenas um num universo que gira sem perguntar ao homem a que velocidade o há-de fazer. Um mundo que gira apenas.
E assim, neste mundo o homem que sabe encontrar um caminho para a sua realização, encontra a satisfação de uma alegria mais constante, mais profunda, a sua verdadeira alegria, aquela que não vive dos soluços dos prazeres terrenos, estados passageiros de pseudo-alegria.

Velhos

O sucedido não é novo, infelizmente, e todos os anos se fazem notícias sobre o tema e dever-se-ia fazer todos os dias para ver se de algum modo conseguir-se-ia chegar à vergonha desta gente. E porque estamos em dias natalícios e fala maior o apelo da família, a notícia é gritante.
Falo do abandono dos velhos desta sociedade. O abandono em hospitais. Velhos que passam a fazer parte da lista dos perdidos e achados como se de trastes falássemos…
Há coisas abomináveis e esta é, para mim, uma delas. Dá-me volta à barriga saber que há famílias com esta capacidade, sem qualquer pudor, de abandonar os seus idosos, coisas velhas que já de nada servem.
É uma vergonha desta sociedade ocidental. Uma vergonha quando se sabe que até nem são famílias desfavorecidas que o fazem, e, se assim fosse, seria talvez um acto de misericórdia, ao menos no hospital teriam cuidados e alimentos. Mas não. São famílias que vêm nos seus velhos familiares um incómodo insuportável que lhes estraga a vida (a vidinha…). Famílias dotadas de uma ingratidão enorme para com aquelas pessoas que, quer queiram quer não, fazem parte da sua história, do seu passado, são o príncipio daquilo que são hoje como pessoas.
É neste egoísmo profundo em que algumas pessoas estão mergulhadas. Não vêm que também aqui há uma forma de materialismo que não as deixa viver na plenitude humana, porque é nas relações humanas, sejam elas prazerosas ou um pouco mais sacrificiais, que está a valorizacão do ser humano enquanto ser superior, capaz de permanecer acima do passageiro, do supérfluo, do que apenas nos poderá dar um bem estar momentâneo.
E a pensar no lucro necessário que todas as coisas deverão dar, certas famílias, além de abandonar os velhotes, ainda lhes ficam com a sua reforma, justo pagamento de ter de os aturar.

Aonde está a consciência destas pessoas? Como podem dormir à noite? Como podem viver diariamente como se tudo fosse normalíssimo? Ou será que não? Ou serão estes actos desumanos reflexos de uma humanidade perdida? Reflexos de corações de pedra? Reflexos de uma vida triste, vazia?

O Riso De Deus

Morreu no passado dia 7 de Dezembro António Alçada Baptista.

Soube por SMS. Fiquei parada, sem pensar absolutamente nada durante uns milésimos de segundo, apenas olhando aquela mensagem, “Morreu o António Alçada Baptista.”
Finalmente, pensei que já não era um homem novo…
Não devo ser diferente das outras pessoas ao achar que os que nos são mais queridos nunca nos vão deixar. Sendo eu uma desconhecida para António Alçada Baptista, não era ele para mim e por isso falo de forma afectuosa deste homem que sabia falar de afectos.

Fui para a minha estante de livros e lá estavam todos seguidos, os de António Alçada Baptista. Comecei a folhear, a procurar nas linhas sublinhadas, nos parágrafos assinalados um trecho para tentar homenagear este meu querido escritor. Mas facilmente me perdi com tanto que ele me tinha para dizer. Facilmnte me apercebi que os inúmeros temas, crónicas, todos eles eram possíveis de transcrever e lembrar o homem que falou de forma simples, descomplexada, de forma carinhosa e até ingenua e sempre tentando perceber a cor dos dias que passam.
O primeiro livro que li deste autor foi Catarina, ou o Sabor da Maçã? e fiquei logo com vontade de conhecer mais porque aqui encontrei uma maneira simples de ver o mundo, de o descomplicar falando de amor, de relações humanas como caminho para uma vida feliz.
Em O Riso de Deus, encontrei alguém que soube pôr no papel aquilo que se ia construindo na minha cabeça, na minha maturidade, palavras que me iam fazendo ser pensante, certo de ideias que procuravam o apoio do pensamneto dos outros.
Tenho um livro que reúne o depoimento de vários amigos de António Alçada Batista, desde Mário Soares até Inês Pedrosa, todos falam de uma luz especial que encontaram neste homem que soube acima de tudo viver das suas relações, valorizando o afecto, um homem que viveu, segundo ele, nunca abdicando “a liberdade, a tolerância, os afectos”.

Numa contra-capa de um dos seus livros está escrito que ler esse livro é “a descoberta de um manancial de experiência com um cariz muito próprio, muito próximo, tão pessoal no quase diálogo que estabele com o leitor.” António Alçada Baptista tinha este dom de fazer de cada seu leitor um amigo próximo. E sendo um dom não se explica, ou se tem ou se não tem. A quem souber encontrar este escritor, terá nas suas palavras o conforto que a única explicação para o mundo é o amor.

“No meio de toda a complexidade do mundo eu gostaria de conquistar alguma serenidade que me ajudasse a viver compreendendo que estamos envolvidos num universo de ignorâncias e que, sobre todos nós e o mundo, pairam ainda todos os mistérios que não sei se um dia poderemos desvendar. É isso: o enigma do homem permance desconhecido e talvez o amor seja o caminho que nos resta para nos libertarmos das ansiedades que o destino que pressentimos para o homem terá posto no nosso caminho.”